quarta-feira, 10 de junho de 2015

Dia de Portugal

Somos feitos de nostalgia, tradições e contradições. Amamos o nosso sol costeiro e o areal das praias onde o mar presta a sua veneração aos descendentes de Pedro e Vasco. Sem que eles se apercebam. Gostamos de bacalhau, estrangeiro, e da sardinha, bem portuguesa! Conquistámos meio mundo e partimos para máres nunca antes navegados há tantos anos atrás, e hoje, quando procuro no português esses traços de coragem e bravura não os vejo nesta escala. Vejo-os no dia à dia, nos que ficam, apesar de tudo, nos que lutam, mesmo com pouco, e nos que nunca se conformam com o actual estado das coisas. Talvez o mundo já esteja pequeno demais para Pedro e Vasco, mas nunca estará para os que nascem nesta terra no fim da Europa. Não sei se a isso se chamará orgulho ou patriotismo, mas quando me perguntam de onde sou a minha resposta é iluminada. Quando me perguntam de onde sou não me lembro dos políticos incompetentes ou dos ladrões de colarinho branco, nem tão pouco dos problemas do dia a dia. Quando me perguntam de onde sou lembro-me da terra, do sol, do mar e deste vento que tem sabor a casa. O que Afonso sonhou quando saiu debaixo das saias da mãe não é o que somos hoje com toda a certeza, mas este lugar a que chamamos casa tem um sabor especial, uma magia especial, que hoje celebramos e da qual nos orgulhamos diariamente. Sou Portuguesa, como o Pedro, o Vasco, o Luís e como o foi o primeiro Afonso. E tenho orgulho em sê-lo, e digo-o aos ventos e às marés, porque esta minha terra é metade de quem sou e levo-a comigo e celebro-a com orgulho e um sorriso.
10 de Junho. Feliz dia de Portugal!

sábado, 6 de junho de 2015

A casa que sou

Mostrar-te-ei todos os cantos de mim. Dos cantos escuros às varandas iluminadas pelo sol. Ficarás com medo no final, sei-o porque te sei. Não tenhas medo. Os cantos da casa que sou e que te mostro, irás amá-los e conhecê-los e senti-los, mesmo que estejas longe. Porque a casa que sou é o tecto onde te abrigas quando o mundo não é o que planeaste. A casa que sou tem todas as cores que me compõe e que te preenchem. A casa que sou é onde moras. É onde viverás, sempre. 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Dia-a-dia

Dias longos, muitas horas de trabalho. Chegar a casa, deixar as roupas do dia e as situações do dia e as preocupações do dia. Beijinhos e amor à Amora. Que espera pacientemente todo o dia pelo amor, carinho, loucura e comida que trago comigo. Beijinhos à Amora, que dá muito mais do que exige de volta. Que preenche quando tudo parece estar ocupado e ter um lugar.
Comer. Não te esqueças de comer. Tanta preguiça. Tanta fome.
E o trabalho a fazer em casa. E a casa para aproveitar. E as luzes da cidade na janela.
As horas passam. Assim como a exaustão.
Nos dias da rua, a corrida gasta o que resta de energia do dia a dia. Os pés no asfalto, a respiração acelerada, o coração a bater mais depressa para colmatar o esforço das pernas e dos pés. Por vezes o cansaço compensa as repetições do quotidiano. A superação de algo pessoal, e tão banal para outros, mas que é uma vitória suada para quem começa agora.
Os sorrisos, as amizades e as alegrias partilhadas por aqueles que dividem um amor difícil de explicar. A cumplicidade entre aqueles que se estão a conhecer. O aspirar ao futuro e o tentar mais e melhor sempre a acreditar que caminhamos para a frente e para uma vida melhor. Para sermos mais e melhor. Sempre.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

#runner

Foram 7 kg em 4 meses. Foram mais de 130 kms corridos desde Janeiro. Não parece muito, na verdade, não é muito. Mas nota-se bem a diferença! Foi lento, como deve ser, com a ajuda dos sopros de todos os dias. A roupa fica larga e alguma deixa de ser usada. As pernas estão mais fortes e os 5 kms 2 a 3 vezes por semana começam a saber a pouco. A ideia inicial era perder peso, mas era também mais do que isso. A ideia inicial era ser melhor, mais forte e usar a corrida como o meu tempo pessoal, a minha meditação e inspiração.
Não acredito em muitas coisas além do mundo dos sentidos, não é falta de fé, longe disso, é fé noutras coisas. Fé nas coisas tangíveis, alcançáveis e, principalmente, fé nas coisas modificáveis. Mesmo que eu quisesse muito acreditar em deuses, luzes e outros que tais, não consigo. É mais forte do que eu, não tenho fé naquilo que tira das minhas mãos as minhas decisões. Assim, ser melhor e mais forte não dependia de acreditar em nada além de mim. Acreditar que a leveza e a liberdade que sinto enquanto corro é real e capaz de mudar o meu mundo. Acreditar que o impacto na minha perna, por vezes pouco confortável, está a moldá-la, a fortalecê-la e a redefini-la numa melhor versão dela própria. Parece tolo dito assim, mas o treino do corpo e o treino da mente são, em muitas vertentes, iguais. Requerem perseverança, insistência e, para serem mantidos, requerem frequência. Correr é mais do que perder peso ou ficar com as pernas mais fortes e rápidas. Correr é um exercício da mente, do controlo da mente sobre o corpo e, principalmente, do controlo da mente sobre a vida. Quando corro tudo faz mais sentido, tudo é mais fácil, mais real, mais tangível. E é aí que reside a minha fé.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Amanhã

Amanhã há um eclipse solar, uma super-lua e é o equinócio da primavera. Amanhã entro de férias, as primeiras férias de 3 semanas da minha vida, e vou fazer 350 kms ao final do dia. Amanhã ficam as malas semi-feitas para a primeira saída do velho continente para o continente mais velho ainda. Não estou nervosa, não estou ansiosa, acho que o cansaço me deixou meio apática e só acredito que vou mesmo quando estiver a fazer escala em Doha. Tenho mil e uma coisas para fazer e estou sentada no sofá, com os olhos quase a fechar, enquanto escrevo estas palavras. Seguimos muitos caminhos e quando estamos a tomar decisões nem nos apercebemos do quanto estas podem moldar a nossa vida. Queremos ser mais e melhores, mas o cansaço é tanto que acabamos por cair em armadilhas que a nossa própria mente nos prega. O cansaço e o desejo. Nunca acreditei que é preciso fugir das coisas para as resolver, acredito mesmo no contrário. Mas talvez o mundo não seja feito à minha medida, e aprender a vê-lo, também, pelos olhos dos outros seja a maneira certa de caminhar. Não é que não se queira, tantas vezes, tomar aquele trilho, fazer aquela corrida, deixar aquela mão, que não está estendida nem recolhida. Não é que não se queira, agir como se pensa, sentir como se vê.  Não fujo, mas vou. Vou porque o trilho, seja ele qual for, está lá à frente. Necessita de movimento para ser alcançado. Movimento além do circular. Vou porque a coragem nunca me faltou, embora tantas vezes fraqueje sobre o peso do mundo. Vou porque não sei ser de outra maneira que não esta, porque não sei aceitar sem questionar e porque temos que ir para aprender. Vou pela amizade, pelo amor, pela terra, pelo mar, pela cultura, pela diferença, pelos tigres e pelas aranhas panadas. Vou pela diferença e pela aprendizagem. Vou, porque não fujo, mas preciso da distância. O outro lado do mundo nunca me pareceu tão perto, nem tão feliz.
Vou, porque sou, e vou continuar a ser, mas mais e melhor.
Vou.